PhD nos EUA: Existe vida durante o doutorado?

Hello, Gafanhotos!

Hoje temos um post especial. Nós, os Abroaders, estamos working hard para tirar suas dúvidas sobre as candidaturas para uma pós no exterior, MAS ainda não estamos lá! E, afinal, eu quero, tu queres, todos querem saber como é de fato estar lá estudando, fazendo o que você tanto está ralando para fazer. E se não for nada disso que estamos esperando?? :O [pensando bem, fale a verdade, você nem sabe direito o que esperar, não é mesmo?]

Pensando nisso,  entrevistamos a Gisele Ribeiro, PhD student de Geotechnical Engineering da Columbia University (NY). Isso mesmo, muito loosho. A Gisele é conhecida pela sua prestatividade  nos grupos do Facebook destinados ao edital de 2013 do Ciência Sem Fronteiras. Suas dicas inspiraram os Abroaders a fazer o mesmo nos grupos do ano seguinte, e finalmente a fazer este site! Ela esteve no seu lugar, no nosso lugar, e agora está vivendo o que por enquanto só está nos nossos sonhos [diários, eu garanto]. Vamos à entrevista??

Gisele e seu marido, no campus da Columbia University (NY). Ela merece!
Gisele e seu marido, no campus da Columbia University (NY). Ela merece!

A: Como você estruturou o seu Statement of Purpose (SoP) e quais dicas você daria àqueles que ainda não escreveram o documento?

G: Na minha opinião, o Statement of Purpose (SoP) é o documento mais importante na aplicação pro doutorado nos EUA. O motivo é muito simples: este é o documento onde você pode “vender seu peixe” pra quem for ler e cabe a você redigi-lo da maneira mais convincente possível. Documentos como histórico escolar, diploma e currículo são apenas transcrições de atividades já encerradas e não abrem espaço pra mostrar sua personalidade e suas qualidades. No meu SoP, inicialmente eu me apresentei e mostrei um pouco da minha área de estudo e quais foram meus trabalhos finais de curso e de mestrado. Mas no decorrer do meu SoP eu busquei mostrar minhas qualidades que foram desenvolvidas durante certas situações já vividas. Por exemplo, eu citei minha jornada de vestibular. Na época, eu fiz vários vestubulares (inclusive militares) e cheguei a morar 1 ano em outra cidade pra me preparar melhor. Eu quis mostrar como eu me dediquei e trabalhei duro pra conquistar meus objetivos. E ainda mostrei que, com isso, eu me tornei uma pessoa muito mais focada e disciplinada, em termos de estudos. Ou seja, o importante é você mostrar suas qualidades/características que são importantes pra realizar um doutorado fora do país, mas ao mesmo tempo, tentar relacioná-las com alguma história de vida sua, mostrando sua personalidade. Por último, eu concluí com um parágrafo de expectativas/planos em relação ao futuro depois do doutorado. No final das contas, meu SoP teve apenas uma introdução da minha área acadêmica e o desenvolvimento foi baseado em experiências vividas (pessoais ou profissionais) pra mostrar um pouco da minha personalidade.

O importante não é apenas contar uma história, mas sim saber contá-la pra tirar máximo proveito dos seus pontos positivos.

Ficou curioso sobre a SoP da Gisele?? Ela muito gentilmente disponibilizou o documento na íntegra! VEJA

 

A: Sobre as suas notas nos exames requeridos (TOEFL e GRE), o que você acha que fez a diferença para ser selecionada em uma universidade de excelência?

G: Eu não acho que o TOEFL ou o GRE tiveram um papel fundamental nas minhas aprovações. Na prova do GRE, principalmente pra quem é da área de engenharia (meu caso), acredito que é importante você dar mais atenção ao Quantitative Reasoning (acima de 160 pontos já é uma boa pontuação). Talvez isso tenha me ajudado (ou não tenha me atrapalhado) nas minhas aprovações.

A: O nível das disciplinas nos EUA é muito diferente do nível brasileiro?

G: Aqui nos EUA o conceito das aulas é bem diferente do Brasil. A carga horária de aulas por semana é mínima (no meu caso, 1 aula de 2h30 por semana) e espera-se que o aluno absorva grande parte do conteúdo estudando em casa e fazendo os exercícios que os professores pedem (deveres de casa, projetos, artigos, etc). Ou seja, o processo de aprendizagem é muito mais “auto-didata” aqui nos EUA, enquanto que no Brasil as aulas são mais lapidadas, exigindo menos esforço do aluno pra compreender o conteúdo. Não sei se dá pra comparar o “nível” das disciplinas entre os 2 países, mas definitivamente, você terá muito mais trabalho e terá que estudar MUITO mais nos EUA.  

A: Mesmo com a proficiência do inglês comprovada, você teve alguma dificuldade em acompanhar as aulas?

G: Quando eu me mudei aqui pra NY, no dia seguinte eu já estava indo pra minha primeira aula, ou seja, não tive muito tempo de me adaptar com o inglês antes. Além disso, especificamente aqui em NY, existem pessoas de TODO lugar do mundo, o que dificulta um pouco mais pra entender o inglês de cada indivíduo. Ex: o inglês de um chinês é diferente do inglês de um indiano, que é diferente do inglês de um coreano, europeu, africano, sul-americano, e por aí vai. Eu demorei um pouco (umas 2 semanas) pra me acostumar com as aulas (principalmente com um professor chinês, que foi o que eu tive a primeira aula). Mas logo na terceira semana as coisas começaram a fluir mais naturalmente. Outra dificuldade que eu tive com o inglês foi em relação a alguns termos técnicos da minha área que eu não era familiarizada. Fiz uma matéria onde eu tinha que anotar as palavras que eu nunca tinha escutado antes pra depois procurar num dicionário inglês/português específico da minha área. Mas depois das primeiras semanas eu também acabei me acostumando.

A: Como tem sido sua rotina de estudos/trabalho? Como são os horários na faculdade e o tempo de estudo em casa? Existem finais de semana e, quem sabe, férias… ou ficaremos presos em masmorras estudando e pesquisando?

G: Meu primeiro semestre (Fall 2013) foi muito INTENSO, afinal era tudo muito diferente do Brasil. Inicialmente, tive dificuldades de adaptação em relação à universidade e ao ritmo de estudos. Como eu já disse, a carga horária de aulas é pequena. Fiz 4 matérias no primeiro semestre (12 créditos no total, que é o mínimo pra ser considerado full-time student), cada uma delas tinha apenas 1 aula por semana com duração de 2h30. Mas em compensação, minha carga horária de estudos em casa era sem limites. Eu estudava TODOS os dias, praticamente o dia inteiro. Eu até queria fazer alguma atividade extra (tênis, por exemplo), mas foi impossível. No segundo semestre agora a carga de estudos continua grande, mas eu já tenho uma noção de como as coisas funcionam. Ou seja, continua intenso, mas eu me acostumei e aprendi a lidar melhor com essa situação. Eu também dei início à pesquisa nesse semestre (estou trabalhando num grupo de pesquisa como RA = research assistant) e estou aprendendo a conciliar essa parte com os estudos.

O início pode ser complicado, mas o tempo é sem dúvidas nosso melhor amigo nessa jornada.

Quanto às férias, estou indo pro Brasil agora no final de maio. Antes disso, eu usei alguns feriados (Thanksgiving, Natal) e os breaks (fall e spring breaks) pra espairecer e viajar um pouco por aqui. [Elas existem, afinal!!]

A: Escolheu viver on campus ou off campus? Por quê?

G: Escolhi morar off campus por dois motivos: primeiro porque meu marido já morava aqui em Brooklyn antes e segundo porque o preço é bem mais acessível fora de Manhattan. O transporte público aqui em NYC funciona super bem, então não tenho problemas para me deslocar até a universidade, mesmo que eu leve 1h pra chegar lá de metrô.

A: É realmente possível viver tranquilamente com a bolsa da CAPES? Você já precisou usar o plano de saúde?

G: No meu caso, meu marido já morava e trabalhava aqui em NY antes de eu me mudar pra cá, então até que consigo viver tranquilamente com a bolsa da CAPES. Mas se não fosse por isso, o aluguel aqui em NY é bem caro e acredito que a bolsa cobriria no máximo os gastos básicos de moradia, comida e transporte. Depende muito da cidade para onde você vai. O plano de saúde pra estudantes aqui na Columbia University é da AETNA. É um plano bom que cobre as necessidades básicas. Eu já utilizei aqui 2 vezes (em um hospital fora da universidade) e paguei só 30 dólares de co-payment pra uma clínica onde fiz exames. O maior problema é o fato de não cobrir consultas odontológicas. E dentista é algo caro aqui nos EUA. Fora isso, até agora deu tudo certo.    

A: Quanto tempo demorou pra sair o seu visto? Que dia a LASPAU lhe enviou o DS-2019* ?

G: Meu visto/passaporte demorou 5 dias pra chegar na minha casa em Brasília, depois de ser aprovado na entrevista no consulado. O meu DS-2019 foi enviado pela LASPAU por email no dia 02 de julho e no dia 08 de julho eu o recebi por correio (que é o que importa). A versão escaneada recebida por email não pode ser utilizada pra levar pra entrevista do visto, apenas a versão original do documento é válida. Por isso, é importante marcar a entrevista no consulado quando você já estiver com o DS-2019 EM MÃOS.

*NOTA DOS ABROADERS: O DS-2019 é um documento enviado pela LASPAU para você, sem o qual não é possível solicitar o agendamento de uma entrevista na embaixada para retirar o visto.  

A: Qual opção você escolheu pra gerir suas finanças? A CAPES sugere/exige alguma?

G: A CAPES envia um cartão BB Americas pra TODOS os bolsistas de doutorado pleno nos EUA. É assim que funciona. Você terá uma conta no BB Americas e a CAPES irá depositar os pagamentos da sua bolsa APENAS neste cartão. Não tem como mudar isso. O que você pode fazer (quase todos os bolsistas aqui fizeram) é abrir outra conta em um banco americano qualquer e transferir sempre o dinheiro do BB Americas pro seu banco americano. A transferência é rápida, sem taxas, e sem limites diários (tem apenas um limite de $2.000,00 por transação, mas você pode realizar várias transações num mesmo dia). Ou seja, super tranquilo.

A: Você precisou modificar o plano que enviou para a CAPES? Como foi esse procedimento?

G: A renovação da bolsa da CAPES acontece de ano em ano. Eu estou renovando a minha bolsa agora (tenho até final de maio pra enviar os documentos). Nessa renovação, você pode modificar seu plano de estudos escrevendo outro (acredito que pode ser mais simples do que o primeiro que fizemos). No meu caso, provavelmente terei que modificar, mas parece que não tem muito mistério não. O pedido de renovação é feito através do site da CAPES (http://sacexterior.capes.gov.br/sacexterior/) em Formulários Online. Alguns dos documentos que devemos enviar são: avaliação do orientador, cronograma de estudos, histórico escolar, relatório acadêmico.

A: Como está sendo a adaptação ao PhD até agora?

G: Eu diria que o primero semestre é o mais difícil em todos os sentidos. Eu nao conhecia ninguém e tive que me virar em tudo sozinha. Eu via que tinham muitos grupos (de chineses, indianos, americanos, etc) nas aulas de engenharia aqui. Foi difícil quebrar um pouco essa “segregação”, mas o que me ajudou muito a me inserir mais na universidade foi o meu grupo de pesquisas que tem 12 pessoas (9 são chineses, contando com meu professor).

Acho importante essa inserção dos alunos na universidade de algum modo. Minha dica é: tente conhecer pessoas e fazer amizades seja participando de um grupo social ou de pesquisa, seja fazendo algum tipo de atividade. Enfim, acho importante ter alguém pra conversar, tirar dúvidas, pedir ajuda, discutir sobre pesquisa em geral, etc. Isso pode ajudar muito na sua adaptação.

Hoje, eu já estou mais envolvida com a pesquisa, além das disciplinas. Aqui nos EUA, a pesquisa na universidade é muito valorizada. Geralmente, os projetos são apoiados financeiramente por empresas que investem pesado mesmo. Isso é super motivador! Acho importante essa conexão entre universidade e indústria (principalmente na área de engenharia).  

A: Que principal conselho você daria a quem está enfrentando esta jornada agora: tanto aos que já estão fazendo as malas como aos que estão iniciando suas candidaturas?

G: Aos que estão iniciando o processo agora, a caminhada é longa, cheia de obstáculos, mas tenha fé e muita paciência, acredite no seu potencial até o fim e não tenha medo de ousar nas suas escolhas. É possível pra TODOS! E pra quem já está na jornada, o conselho que eu dou é que tenham muita persistência e preparem-se (em todos os sentidos) pra virem pra cá! O choque é grande, mas além de toda a experiência acadêmica/profissional, a experiência de vida e o seu crescimento como indivíduo são impagáveis! Vale a pena!

8 respostas para “PhD nos EUA: Existe vida durante o doutorado?”

  1. Olá, pessoal, tudo bem? Não consegui acesso ao link do SoP. Seria possível disponibilizá-lo novamente?
    Muito obrigado por todas as informações!

  2. Vim agradecer pelas informações deste site. Ajudaram e foram inspiração para meu próprio processe. Fui aprovado para fazer o PhD nos EUA, e agora também compartilho minhas experiências em meu blog http://myphdtales.blogspot.com.br/ para quem sabe inspirar mais pessoas.

  3. Olá,
    não entendi uma coisa: as aulas de doutorado são 1 vez por semana e o estudante estuda por si mesmo no resto da semana ou as aulas são todos os dias?

  4. Oi!!
    Alguém pode me esclarecer algumas dúvidas ? A LASPAU está com vagas abertas para doutorado pleno pra o segundo semestre de 2016, no site diz que não preciso de mestrado , e que o único requisito além do inglês , e nacionalidade brasileira , é ter o certificado do bacharelado antes de junho de 2016. Esse é o meu caso , forno agora em dezembro de 2015, e quero muito me inscrever tenho buscado o máximo de informações mais estou achando muito difícil !
    Primeiro, gostaria de saber se a LASPAU é um canal somente pra Harvard , ou pra outras universidades . Preciso saber disso pra poder correr atrás de um orientador em minha área odontologia. Ou seja , posso entrar em contato com algum orientador se Harvard?
    Em segundo lugar, no site da LASPAU diz que não devo ter uma carta de aceite da universidade , nesse caso eu preciso só de um projeto e de um orientador ?
    Preciso dessas informações e agradeceria muito o auxílio de vocês ! Obrigada

  5. Olá Abroaders,

    Bacana poder ler entrevistas como esta.

    Tive oportunidade de participar de um Webinar organizado pela Laspau o ano passado, que contou com a participação de 2 grantees recém-aprovados. Ambos puderam compartilhar conosco suas experiências durante a fase de Academic Placement.

    Relatos como esses e o da Gisele, desde a pré-seleção até a conclusão do nosso doutorado, me são muito valiosos. Acho que ajudam a desmistificar um pouco o ‘o que acontece agora’ ou respondem dúvidas qto a nossa relação com o CsF/CNPq. E assim a ansiedade fica mais controlável 😉

    Ultimamente tenho me antecipado em verificar opções para housing. Td tem caminhado para eu ir pra NYC, como a Gisele, e como conheço a cidade, sei que com a bolsa do CsF vai ficar bem apertado – vou ter que me envolver em Research Assistanships não só pelo prazer de incrementar minha experiência acadêmica, mas tb pra complementar meu orçamento.

    Seria ótimo ouvir depoimento de alguém já instalado, especialmente em cidades de custo de vida mais elevado. Será que participar de só um RA é suficiente pra cobrir as despesas e ainda ter um respiro? Alguém tá morando em dorm/residence da universidade e o que está achando da experiência? É confortável? Detalhes bobos, mas que podem nos ajudar a garantir melhor qualidade de vida durante esse período..

    Se puderem compartilhar mais, ficaria super contente.

    Grande abraço a tds da equipe!

    1. Ei Larissa, podemos sim! 😀 Inclusive muitas pessoas optam pelo BB Américas para ser o banco de conta internacional. Converse com algum gerente de um Banco do Brasil e eles te darão maiores informações.Abraços!

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